Nula dies sine linea

Nunca sem uma linha. A frase é de Caio Plínio Segundo, um daqueles romanos fora de série, conhecido como Plínio, o Velho –  mas na verdade estou citando um amigo escritor que a tem tatuada no braço. O sentido pode ser muito mais profundo, claro: nem um dia sem uma meta, um horizonte, uma ideia.

É um desafio. Vou deixar essa promessa marcada aqui, também. A partir de hoje, nunca acabar o dia sem uma linha – na minha interpretação livre, um texto, uma anotação. Seja escrita aqui, seja num arquivo em word que vai acabar esquecido como tantos outros, seja no caderninho no fundo da bolsa; mas se consegui identificar algo que me faz bem, e que faço bem, creio que seria bom parar de fazê-la apenas por encomenda, sem qualquer conexão com minha vida e meus interesses.

Uma linha só pra mim, um horizonte só meu.

E lógico, a  coluna/blog sobre minhas leituras continua firme e forte.

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The People vs OJ Simpson

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Estou apaixonada pela série e pela personagem Marcia Clark, a promotora do caso OJ Simpson. Nem vou repetir aqui o que todo mundo sabe ou já deveria saber – se você é novinho demais e não viu a fuga do ídolo americano ao vivo pelas ruas de Los Angeles, não conhece as cenas mais célebres do julgamento dele, me causa estranheza, mas sorte sua, que vai se surpreender mais ainda que eu ao assistir a série.

(atualizando: Cuba Gooding Jr. no papel de OJ foi o que chamam de close errado)

O que eu sabia: que OJ Simpson tinha sim matado a mulher. Lembrava bem da capa da Time, em que seu rosto foi escurecido para torná-lo mais ameaçador, isto é, mais negro. Que o racismo e a violência da polícia de Los Angeles também foram levados a julgamento. Que Nicole foi ao banco dos réus como uma loira oportunista “que não era santa”. Do coitado que morreu junto, que seria um bimbo – um lavador de piscina, um sex toy.

O que eu não sabia é que, além do lance das luvas e tudo que ficávamos sabendo, eu sem muito interesse, confesso, o julgamento tivesse sido tão eletrizante e a cobertura sensacionalista da imprensa tivesse chegado até à vida pessoal da promotora, uma mulher foda dedicada à defesa de mulheres vítimas de violência.

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Infelizmente ela acreditou que os fatos falariam por si mesmos – o sangue, o DNA (que era novidade à época), a linha do tempo do assassinato, tudo deixava o ocorrido muito claro. E o OJ teve a cara de pau de descrever a cena toda em um livro posterior chamado “If I Did”.

Entre infartos ao vivo, mudanças de corte de cabelo, lances sensacionalistas sobre o passado dos advogados e promotores, brigas entre as equipes, o julgamento fica tão novelesco que se fosse um roteiro inventado a gente diria “ah, peraí, agora exageraram – pularam o tubarão”.

Foi um julgamento injusto.

Discriminação Racial x Violência contra a Mulher.

Grana x Serviço Público

Narrativa x Fatos

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E ainda tem o pai das Kardashians e John Travolta no papel de John Shapiro, uma lenda americana; e a estrela da bancada da defesa, o advogado John Cochran. Não há um personagem desinteressante nessa história. E mais não conto. Estou esperando quem queira comentar comigo. Porque apesar de ter sido o primeiro julgamento televisionado da história, posso dar spoilers sobre seu desenvolvimento. Minha dica: não leia sobre o julgamento até terminar a série.

OJ Simpson foi condenado num processo civil, em 1997, a pagar 33 milhões de dólares às famílias das vítimas e, num novo caso que poderia dar outra série, foi condenado a 33 anos de prisão por roubo e sequestro e está preso até hoje.

PS – Eu baixei, mas é um programa do FX/Fox, então pode ter no Now da Net, e vai entrar em fevereiro na grade da Netflix.

PS 2 – da Wiki:

  • 20 milhões de pessoas assistiram o julgamento pela televisão. O anúncio do veredito bateu o recorde de audiência da chegada do homem à lua, e do funeral do presidente John Kennedy, recordes antes quebrados em abril de 1973 com o show de Elvis Presley  no Havaí.

Navegar é preciso

Há quem goste de viajar e se surpreender. Eu gosto. Mas uma coisa que nunca mais faço na vida é chegar a um lugar sem qualquer referência sobre ele; o arrependimento de não ter consultado um guiazinho ou de conhecer uma história que fosse é quase inevitável. Pensando nisso, fiz outro dia um post no nosso arqui-inimigo, o Facebook, comentando que gosto de indicar livros/filmes que remetem a países/cidades. Não que eu seja uma grande leitora, cinéfila ou viajante, mas juntando um conhecimento aqui, uma referência ali, acaba saindo alguma listinha boa. Aí muita gente colaborou com o post e ele ficou maior do que eu tinha planejado, por isso o transfiro para a melhor das plataformas, o blog, onde sofre menos risco de desaparecer. Vamos às dicas que tem gente de sorte de férias por aí.

AMÉRICAS

trilogia

VAI PRA CUBA! Então leia antes O Rei de Havana ou a Trilogia Suja de Havana, de Juan Pedro Gutierrez. E agora tem uma série nova na Netflix chamada Quatro Estações em Havana que, ouvi dizer, vale principalmente pela ambientação na cidade. Baseada na obra de Leonardo Padura Fuentes, escritor policial que me parece muito bom, e do qual vou atrás. A Ana Carolina Bendlin lembrou de Nosso Homem em Havana, livro policial-espião do Graham Greene que eu preciso reler e que tem uma versão cinematográfica delicinha noir com roteiro do próprio autor.

amorbas

VAI A BUENOS AIRES? Então indico O Amor Segundo Buenos Aires, do meu amigo Fernando Scheller. Uma delícia. Nunca fui à Argentina, portanto não tenho mais dicas, apenas imagino que ler os grandes autores e pegar a filmografia do Ricardo Darín seriam uma boa providência. Mas cito também o filme argentino que mais me marcou, ultimamente: O Clã.

Quer se inspirar para VISITAR O PERU? A Ana Carolina Bendlin lembrou de Travessuras da Menina Má, de Mario Vargas Llosa, que também vale para Paris, pois se trata de uma história em vários cenários.

VAI A NICARÁGUA? Hugo Lorenzetti indica El País Bajo Mi Piel, de Gioconda Belli; Adiós Muchachos, de Sergio Ramírez, e Managua Salsa City, de Franz Galich.

GUATEMALA: “Soy Rigiberta Menchú y así me nació la consciencia”, da própria; “Week-end en Guatemala, do Asturias – dicas do Hugo, assim como para  EL SALVADOR: “qualquer coisa do Salarrué e do Roque Dalton”. Para o PANAMÁ, Hugo garante a leitura de El Ataùd de Uso, de Rosa Maria Britton.

confesso

VAI PARA O CHILE? Minha dica e da Raquel Azevedo é Confesso que Vivi, do Neruda – não é poesia, é autobiográfico, e como a Nina, você vai querer virar diplomata também. Já a Nalu prefere A Casa dos Espíritos (Isabel Allende), que leu durante a viagem até lá. Inclusive tem o filme. A Fernanda Castro recomenda ainda ouvir Violeta Parra – o que renderia outro post: o que você ouve quando pensa em viagens? Mas fica pra próxima.

PARA O CANADÁ? Leia Alice Munro, de preferência Felicidade Demais. Depois não me culpe se achar deprê demais. E para assistir, recomendo demais O Declínio do Império Americano e sua continuação trocentos anos depois, As Invasões Bárbaras, ambos do cineasta Denys Arcand.

VAI A NEW YORK? – Ler e assistir Woody Allen é básico. Manhattan, principalmente. Mas a cidade está em tantas referências. A Raquel Azevedo cita Serendipity. “Eu adoro, a NY dos late 90s está toda ali” –  não conheço o filme, mas se tem o John Cusack, já aprovo. “Autumn in New York é uma coisa água com açúcar mas mostra a cidade na estação em que fica mais linda. As comédias da Nora Ephron são super NY (Sleepless in Seattle e You’ve Got Mail). Dos clássicos, tem o Era uma Vez na America, os The Godfather, as comédias do Billy Wilder (adoro The Apartment), the French Connection… são tantos! E tem um dos meus filmes favoritos, que se passa no Brooklyn, The Squid and the Whale”, cita Raquel. Já eu quando for à cidade quero correr no Central Park me sentindo o Dustin Hoffmann fugindo do dentista nazi em Maratona da Morte 😉  E claro, mil locações de séries, de Seinfeld a Sex & The City (saudade dessas meninas).

EUROPA

VAI A PARIS? Que sorte. Obviamente, recomendo ler Paris é uma Festa de Hemingway, e Próxima Estação, Paris (L. Deutsch). Também assistir Camille Claudel com Isabele Adjani, para chorar durante a visita ao Musée Rodin, ou mesmo ver A Rainha Margot antes de visitar a Notre Dame e o Louvre. Antes de visitar o Palácio de Versailles, assistir Versalhes, Sonho de um Rei. Você vai saber que o palácio é resultado de nada mais, nada menos, que um grande recalque. E que tanto as florestas quanto o lago não existiam no local. O filme não é lá grandes coisas mas a história é muito legal. A Helena Costa viu Bonequinha de Luxo antes de viajar, e eu endosso que Meia-Noite em Paris, do Woody Allen, virou meio obrigatório, apesar dos personagens americanos que são um porre.

VAI VIAJAR EM AMSTERDAM (rysos)?  Para ir a Amsterdam assisti o episódio da BBC de O Poder da Arte, que infelizmente não pode mais ser visto aqui no Brasil, mas quem sabe tem pra baixar em algum lugar? Pra saber tudo sobre Van Gogh e Rembrandt, claro! Infelizmente minha TL não tem muito o que dizer sobre maconha e o bairro das moças nas vitrines. A Rita Paschoalin indica ler Cartas a Theo, a correspondência dos irmãos Van Gogh, e também O Diário de Anne Frank, que é pra se acabar quando for ao museu. Ainda não li Amsterdam de Philip Roth mas já aposto que é uma boa. E tem esse episódio de Dr. Who que é covardia. Mas é sobre o pintor, não sobre a cidade, que merece uma missa à parte.

PARA BARCELONA: A sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón (indicação de Lucio Caramori, que viaja muito, sabe tudo, me indicou o museu de Edimburgo e até hoje a Nina ainda acha o melhor em que já esteve/brincou). E tem Almodóvar pra mostrar a cidade em Tudo Sobre Minha Mãe.

PARA BERLIM: Novamente o Lúcio, que indica a leitura de Slaughterhouse 5 do Kurt Vonnegut. Para assistir, Adeus, Lênin – lembrança da Vanessa Viana. A Fernanda Peruzzo lembra de Asas do Desejo, do Win Wenders,claro – nem pense em cometer a insanidade de ver aquele com o Nicolas Cage. Ok, se quiser siga em frente, mas tô avisando.

PARA PORTUGAL: qualquer Eça de Queiroz, é o consenso – A Relíquia é a indicação da Camila Manfré Gläser. E do Saramago, a História do Cerco de Lisboa, lembra a Jaqueline Frutuoso, para quem o livro é quase um roteiro turístico romanceado. Ana Carolina Bendlin indica O Ano da Morte de Ricardo Reis. PARA LISBOA, especificamente:  a poesia de Cesário Verde e a de Sophia de Mello Breyner Andersen – “come on, Pessoa is so common”, diz Hugo Lorenzetti, que assina essas dicas e ainda a do quadrinho Portugal, de Cecil Pedrosa. O Lúcio Caramori lembra do filme O Céu de Lisboa, de Win Wenders. O que me lembra daquele azul profundo, ai ai.

LONDRES? A Daniela P. B. Dias confessa: “nunca fui a Londres, mas Os Tijolos Nas Paredes das Casas da Kate Tempest me fez sentir a cidade”. Então vamos atrás. Londres complica porque é como New York, tantas as referências que me vêm, de Sherlock a Luther, na Netflix. A Terla recomendou Rosamunde Pilcher pra quem quer ir à Cornualha, mas eu não entendi se o livro seria Os Catadores de Conchas. Particularmente, prefiro ir de Jane Austen, tanto na tela quanto nas letras.

Ou ainda dá pra ver Londres quietinha, quase abandonada, nos primeiros 15 minutos do melhor filme de zumbis já feito (eu acho, me deixa).

ESCÓCIA: aproveita que em janeiro de 2017 vai ser lançado a continuação de Trainspotting e assiste o primeiro. Desculpa mas eu ando meio obcecada com essa produção, e estou no segundo livro, chamado Porno. Ambos de Irvine Welsh. Mas também dá para conhecer Edimburgo lendo ou assistindo a Um Dia, de David Nichols (o escritor).

VAI PARA A ITÁLIA? 

SICILIA: L’Aventura, do Antonioni. Salvatore Giuliano, do Francesco Rosi, para se inteirar sobre a história da máfia antes de visitar a região de Trapani. Dicas da Fernanda Peruzzo.

FLORENÇA, amada Firenze, tem dois filmes indicados pela Gisella Dória: Inferno, baseado no livro do Dan Brown, e Uma Janela para o Amor, antiguinho, do tempo que a Helena Bonham Carter era famosa por só fazer filmes de época. Delícia!

ROMA – a Renata Lins lembra do obrigatório Roma, do Fellini. Aí é covardia. Nani Moretti também foi lembrado: “pesquisa pelo  episódio Garbatella de Caro Diario”. Mas não tem como não ver La Dolce Vita também, desculpa aí, Roma exige clássicos. Apesar de que tem um episódio delicioso e desavergonhado de Uma Noite Sobre a Terra, com histórias em quatro ou cinco cidades do mundo, filme que teve uma segunda versão, sempre cada episódio com um diretor diferente – achei o de Roma, segue abaixo. =) A Ferzinha Peruzzo também lembra de Feios Sujos e Malvados, do Ettore Scolla, “porque o melhor da Itália são os italianos sem glamour ;)”. Amo esse filme mas é pra ver uma vez, ele te consome. Outra coisa que sugiro é pegar um guia de Roma e sair atrás de todos os Berninis que você puder encontrar. 

 

NÁPOLES – Pelamordedeus, tava esquecendo dos quatro livros da Elena Ferrante. Outro dia vi um link com os lugares por onde os personagens passam, se achar, atualizo aqui. Outra dica da Ferzinha: Viaggio in Italia, do Rosselini, para chorar quando visitar Pompeia.

amiga

VAI A BÉLGICA? Antes de conhecer a ANTUÉRPIA, veja o filme Anywhere theWind Blows  e para BRUXELAS, Brüsel, quadrinho de Schuiten & Peeters (dicas do Hugo).

ÁSIA

PARA ISRAEL: Indicação da minha amiga Daniela, Operação Shylock, do deus Philip Roth. Elogiadíssima também a série Fauda, disponível na Netflix.

VAI PARA A TURQUIA? A Rachel Penariol acha que você deve ler O Museu da Inocência, do nobelizado Orhan Pamuk, antes de conhecer Istambul.

ÍNDIA: Leituras recomendadas pelo Hugo: White Tiger, de Aravind Adiga; The Dod of Small Things, de Arundathi Roy; qualquer conto ambientado em Maguldi; Serious Men, de Manu Joseph e Narcopolis, de Jeet Thayil.  Eu de minha parte ouso indicar o Salman Rushdie e a Jhumpa Lahiri.

IRÃ: “Death in Persia”, de Annemarie Schwarzenbach é a recomendação do Hugo. Eu sugiro ainda o filme A Separação, maravilhoso. Tem uma porrada de bons filmes iranianos por aí.

BUTÃO: Sim, temos dica para quem vai ao Butão, o quase inatingível reino da felicidade.  The Raven Crown (parece ser uma belezura). Dica do Hugo, Nosso Homem no Butão.

PAQUISTÃO: The City by The Sea, de Kamila Shamsie (dica Hugo).

SEUL – A Denise Arcoverde morou na capital da Coreia do Sul e garante que um filme de monstro vai mostrar todas as pontes da cidade e até dar margem a uma análise sobre a socidade local etc. É The Host, eu nunca assisti e fiquei super a fim.

OCEANIA

VAI PARA A AUSTRÁLIA? A Rita Paschoalin acaba de ler Ithaca Road, do Paulo Scott, que se passa em Sydney. Faz parte da série Amores Expressos, da Cia das Letras. Já eu acho que todo mundo tem que ver o melhor road movie já feito:

NOVA ZELÂNDIA? Você pode ter uma ideia da colonização em seu início, lindamente, assistindo ao premiado O Piano. Ou pode conhecer os efeitos dessa colonização sobre os descendentes dos aborígenes, em um filme violento e original que eu adoro: O Amor e a Fúria. Nada fofo e nem passa perto das belezas dos cenários naturais, mas isso você já viu em todos os episódios de O Senhor dos Anéis.

ÁFRICA

QUÊNIA – a história da colonização do país está em A Fazenda Africana, de Karen Blixen. O filme com Meryl Streep e Robert Redford nem chega a arranhar a beleza das descrições das tribos e dos cenários ainda selvagens. Mas é um bom filme, um romanção daqueles de fazer chorar e tal.

NIGÉRIA – Toda a obra de Chimamanda Ngozi conta passado e presente do país. A Geide Miguel recomenda Meio Sol Amarelo e a Terla, Americanah. Gosto de ambos.

RUANDA – Ok, não conheço ninguém que vá a Ruanda a passeio e nem conheço os filmes sobre o genocídio. Mas não posso deixar de lembrar do lindo Nas Montanhas dos Gorilas, com a fodona Sigourney Weaver no papel da fodona Diane Fossey. Uma daquelas pérolas que se perdeu no tempo.

E por enquanto é isso: algumas dicas óbvias (digamos clássicas), outras totalmente novas. Faltaram centenas de países, mas vamos passar aquele papo bacana naquela rede social aqui para os comentários, que estiver a fim. Assim vou atualizando e ampliando o post. As dicas sobre Brasil (Vera Guimarães falou sobre este livro) vão ficar para um post específico.

Feliz Ano Novo! Que tenhamos a possibilidade de viajar muito em 2017.

Filmes de Natal, menos aquele do Colin Firth falando português plmdds

Hoje é dia 23, veja bem, ainda não é hora de fazer um post sobre resoluções de Ano Novo, isso fica para a semana que vem. Aqui minhas dicas de filmes adequados à data, menos aquela melosidade pegajosa daquele filme supracitado.

Começando pelos épicos: a vida do vizinho de Jesus Cristo.

No gênero aventura, o feriado do professor Snape.

Um filme sobre família e fraternidade, ambientado no famoso edifício Dakota.

Ignore a existência de uma nova versão e se divirta, neste, procurando o fusca na cena da corrida de bigas.

Pra fechar, um filme com crianças e que eu adoro: a singela história de um menininho que só quer ganhar uma espingarda de presente! (sério, esse filme é muito engraçado)

 

Aeeee Feliz Natal!

Ode (ódio) ao Logan

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Eu odeio o Logan. Eu conheço bem o Logan.

Logan é dinheiro. É o sorriso entre condescendente e arrogante. O brilho nos olhos de Logan ordena: me reconheça e eu te dou o direito de me tratar bem. Logan dá gorjetas altas.

Logan faz parte de irmandades secretas. E não faz segredo disso.

Descende de uma longa linhagem de sucesso. É solícito. “Quer que eu fale de você com Fulano?”. Logan nunca esquece um nome, uma dica, um favor. Sabe cobrar com elegância e não admite constrangimentos.

Logan sabe onde encontrar o prato com o ingrediente mais difícil fora de época. Sabe aproveitar o melhor do verão e tem a roupa mais adequada ao inverno. Conhece os estilistas, os artistas, os donos de tudo. Não entra em fila. Não ergue a voz. Alguém o faz por ele – mas bem longe.

Logan tem algum talento mediano com o qual se exibe e pelo qual não espera menos que admiração.

Já trabalhei com Logan. Nunca vamos saber se ele realmente entende o que faz (alguém lembra de Logan escondendo os trabalhos escritos com letra que não era a sua?). Logan zomba de professores, menospreza a teoria. Mas Logan sempre tem um cargo. Toma para si os méritos. No fim do ano, Logan leva o grupo de trabalho para um restaurante caro e paga a conta.

Logan não seria #foratemer nem #ficadilma. Tanto faz, pra Logan. Seu mundo é pronto, definitivo, de distâncias curtas em viagens confortáveis. Logan não quer complicações. Não quer ter opinião, quer contar histórias exóticas, divertidas, com personagens raros.

Ao conversar, Logan olha nos olhos e não ouve.

Logan ama poucos. Logan é um cara família.

Mas Logan é lindo, seu sorriso é encantador. Apaixonante.

*Esse post trata de um personagem de Gilmore Girls, a obsessão da semana. 

Notas para o livro que nunca vou ter tempo de escrever- 1

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Cena-gatilho: sábado de manhã, ensolarado.

Casal vestido com roupa de caminhada (bermuda colante, camiseta de cores claras, ambos de boné, tênis caros), em torno dos 40 anos, socorrem um mendigo que aparentemente está infartando, no chão. Ele segura a cabeça do homem sobre o joelho, ela telefona para o Samu. Outras pessoas passam olhando, no caminho para a ciclovia.

Personagens: o casal

Casados há 15 anos. Ultimamente ambos têm se decepcionado mutuamente, o que os leva, ao mesmo tempo, a pensar em separação. A mulher perdeu o emprego, o que na avaliação dele, aconteceu por incompetência (obs: pensar numa profissão de status, tipo advogada ou engenheira). Nunca saberemos. O homem a surpreende por ter começado a emitir opiniões diferentes do que sempre teve (definir se vai ser mais de direita ou de esquerda – se foi numa passeata de verde e amarelo ou numa #foratemer).

Filhos: não têm. O que os prende um ao outro é a história em comum. Acreditam que devem muito um ao outro. Uma relação de dependência emocional.

Mendigo: vive na rua, viciado em álcool, fim da vida, pequenos crimes. Figura só vai se revelando conforme a história avança.

Começo da história

Numa incrível coincidência, na chegada da ambulância, homem e mulher descobrem a identidade do mendigo e que ele de alguma forma faz parte do seu passado  (vem da cidade de um dos dois, é parente distante? – a decidir). Cada um passa a “ver” o mendigo de uma forma diferente da do outro: como ele chegou ao fundo do poço, viciado, sem memória, abandonado pela família, se teve um começo de vida normal? Enquanto um sente empatia, o outro demonstra aversão (só um vagabundo mau é abandonado pela família x a sociedade oprime, enlouquece o loser).

O episódio com o mendigo se torna um momento-chave na vida do casal. Nunca mais o veem, mas tudo que acontece em seguida tem relação com as atitudes e convicções despertadas naquele episódio. Finalmente o pior de um se revela aos olhos do outro, depois de tantos anos de convivência: o casal se separa, ambos buscam outras pessoas, tentam se reinventar, afastados. Spoiler: a reinvenção é uma ilusão, eles continuam sendo os mesmos e se amando, apesar do desprezo recíproco pelo que se tornaram.

O Mendigo

Sem a menor ideia de que havia se tornado uma questão para o casal que o atendeu quando sofreu a parada cardíaca, o Mendigo volta para a rua. Paralelamente à vida deles, descreve-se seu dia a dia na rua (um capítulo com o homem, um com a mulher, outro com o Mendigo) e, por meio de pequenos diálogos, desvenda-se sua história, que em momentos confirma parte da tese do homem, em outros, da mulher.

 

Cenários/ extras

Rua – dono de bar, aposentada que doa roupas, assistente social

Trabalho – ex-colega do marido

Extras – amigos de internet/ comentários de facebook

I told you when I came I was a stranger

Comecei a escrever, deletei, voltei, mas o mundo já acordou sabendo, não há muito o que contar. Houve quem lembrasse de mim ao ler sobre a morte de Leonard Cohen, e é bom sinal de que pelo menos sou fonte de boas referências. Repetindo a Beth Salgueiro, eu queria fazer um texto bem bonito pra falar dele. De como eu e o marido o conhecemos há 20 anos, ouvindo os CDs do dono do bar, nas madrugadas de São Carlos – aquele folk, aquelas letras que não combinavam com o interior de São Paulo, nada tinham a ver com nossas vidas pacatas trabalhadoras pobres previsíveis e que no entanto eram tão a nossa cara e que trouxemos conosco até hoje como um privilégio, um lugar, um segredo, que espalhamos cuidadosamente, para poucos, para quem entendesse, com zelo, com amor. Poxa, estou triste.

 

(gosto de vê-lo assim, novo, parecido com o Dustin Hoffman, entre amigos bicho-grilos, noutros tempos, antes de ser redescoberto com o vozeirão mais profundo e rouco – outra fase maravilhosa, diga-se)

 

Questionário Antoinette

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O nome é Questionário Proust, mas deveria ser conhecido como Questionário Antoinette, prima e amiga do escritor que tinha um tipo de caderno de recordações e é a verdadeira autora das perguntas, uma investigação sobre a personalidade de quem responde. Como aqueles que tínhamos antigamente e sobre o qual rolou recentemente uma onda de nostalgia, se não aqui, pelas redes sociais. Mas as mulheres de 1800 e tantos nunca ficavam com os créditos. Nem sobrenome a coitadinha tem, só o parentesco. Deve ter sido uma pessoa interessante e quem sabe tenha inspirado uma das personagens de Em Busca do Tempo Perdido. Vamos pensar nisso como um consolo. As perguntas são bem complicadas; respondi-as uma vez durante uma aula de francês, mas nem quero procurar minhas respostas de então, porque devem ser bem diferentes.

1- Qual o principal aspecto de sua personalidade?

Excessivamente crítica (chata).

2- Qual sua qualidade favorita num homem?

Inteligência e bom humor.

3- Qual sua qualidade favorita numa mulher?

Inteligência e bom humor.

4- O que mais aprecia nos amigos?

Acho que vou dar as mesmas respostas o tempo todo. Ok, aprecio os amigos que não fazem da amizade um contrato com deveres e direitos. Como chamar isso? Leveza?

5- Qual seu principal defeito?

Impaciência. Ou o item 1.

6- Qual seu passatempo favorito?

Séries e bons livros.

7- Qual sua noção de felicidade?

Viver sem preocupação com o futuro (ou seja, impossível).

8- Qual sua noção de infelicidade?

Pessoas que amo com problemas que não posso resolver/ajudar.

9- Se você não fosse você mesmo, quem seria?

Alguém com uma vida totalmente diferente (se é pra escolher, não vou me repetir).

10- Onde gostaria de morar?

Todos sabem.

11- Qual sua cor favorita?

Preto.

12- Qual seu escritor favorito?

Philip Roth, John Fante, Graciliano Ramos.

13- Qual seu poeta favorito?

Não tenho.

14- Qual seu herói favorito na ficção?

Arturo Bandini, Holden Caufield, Philip Carey. Só os losers.

15- Qual sua heroína favorita na ficção?

Lenù e Lila.

16- Quais seus pintores e compositores favoritos?

Van Gogh, Cézanne, Lucien Freud; compositores são muitos, de Chico Buarque a Leonard Cohen, Bowie, Mozart (os clichês todos).

17- Quais seus heróis na vida real?

Os ativistas que dedicam a vida às causas que a gente só curte no Facebook. Médicos sem Fronteiras, GreenPeace.

18- Qual sua figura feminina favorita na história?

Poxa. Camille Claudel, Anita Garibaldi, Marie Curie, Heloísa (do Abelardo), Diane de Poitiers. Impossível uma só.

19- Quais seus nomes favoritos?

Nina, Dafne, Max.

20- O que você mais odeia?

Cobrança (em todos os sentidos).

21- Quais as figuras históricas que você mais odeia?

Além dos óbvios (Hitler, Pol Pot etc.) o Torquemada, que representa o ápice da intolerância religiosa política.

22- Qual o evento militar que você mais admira?

Admirar é dose, mas tem as histórias legais. A batalha contada por Shakespeare em Henry V, as vitórias dos russos sobre Napoleão e Hitler. O Dia D.

23- Qual o talento natural que você gostaria de ter?

Para a pintura.

24- Como você gostaria de morrer?

Velha, dormindo.

25- Qual é seu estado mental atual?

Ansiosa.

26- Por qual o defeito você tem menos tolerância?

Preguiça.

27- Qual seu lema favorito?

Amanhã é outro dia.