Aqueles momentos em que percebemos a finitude

chute

Fui fazer as unhas e queria uma cor clara, porque planejo fazer panquecas para receber o viajante, e o vermelho não sobrevive ao tira-e-põe. Escolhi uma cor que parecia bonita na luz do salão; mal entrei no carro, já odiava. Peguei a rua pelo lado errado. Para não dar uma volta imensa, estacionei numa papelaria: fiz a conversão, irritando os motoristas que vinham atrás, mas entrei no espaço que me permitiria voltar pela outra mão. Com vergonha da manobra, desci e comprei quatro canetas Pilot daquelas antigas, ponta fina, que eram o luxo do meu ginásio. Duas azuis, uma vermelha e uma preta. Uma azul para a Nina, mesmo sabendo que ela nem vai gostar, pois tem canetas coloridas francesas apagáveis, e com isso seus cadernos parecem mais adultos. Mal sabem as professoras que a tinta apaga, como naquela Kilométrica dos anos 90, retirada do mercado porque era usada para fraudes com cheques. As pessoas assinavam os cheques e os malandros refaziam os valores.

Fui para o carro, na garoa que começou a descer no intervalo mínimo de tempo da compra das canetas, finalmente no caminhos do restaurante libanês, morrendo pelo quibe e pela esfiha, acompanhados de um suco de uva light, porém ultra-doce, de praxe, que como em dez minutos lendo a página 2 da Folha na sala de reuniões. Encontrei a vaga perfeita.

Na frente do restaurante, não vi um degrau na calçada. Levei um tombo épico. Tão grande que até mereceria o pleonasmo: caí um tombo. Daqueles em que a gente tropeça, dá três passos gigantes e se estabaca como um dos sapos de Magnólia, caídos do céu. A bolsa pra um lado, a blusa para cima, expondo parte das costas, barriga e, ah que inferno, do rêgo, talvez; a dignidade se perdeu  no bueiro. Certeza que fechei os olhos durante a queda. Unhas estragadas, mãos raladas ardendo, joelho latejando, tento levantar. Um moço muito lindo, cabelos e olhos cor de mel, linda camisa bordô, calça cáqui, olhar de quem se diverte porém se esforça para parecer preocupado, pergunta:

– Senhora, machucou?

Agora sim, eu devia ter respondido, agora doeu.

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