A sombra dos fatos

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A essa altura todo mundo já sabe que a italiana Elena Ferrante, autora dos quatro volumes da tetralogia (que termo horroroso) de Nápoles (A Amiga Genial, A História do Novo Sobrenome, Os que Vão e Os que Ficam e A História da Criança Perdida*) não dá entrevistas, não vai a programas, não promove seus livros pessoalmente e ninguém sabe nem ao menos como ela se parece – não há fotos.

Acabo de ler o quarto livro e ainda estou imersa na história e na escrita, mas isso não vem ao caso. Muita gente está escrevendo sobre a obra melhor do que eu poderia fazer, e sem spoilers. Quero pensar na autora.

Primeiro, a admirável força de vontade de conviver com o não reconhecimento pessoal. Deve ser uma pessoa que se basta e não está nem aí, ou que tem ojeriza à fama – o que pode demonstrar que a personagem Lila seja autobiográfica. Ou medo doentio, síndrome do pânico. Como ela tem uma qualidade incrível de texto, imagino que não seja por modéstia ou excesso de autocrítica.

Citando um pedaço da história da Amiga Genial (sem dar spoiler, porque isso está lá no começo), Lila exige de Lenù, a escritora, que nunca escreva sobre sua vida. Aí lembro de Woody Allen, sempre autobiográfico e, no outro extremo do estilo da italiana, com uma vida de exposição intensa em detalhes escabrosos, como sabemos. Em filmes como Celebridade e Desconstruindo Harry (entre outros) seus alter-egos, ao fazer sucesso com livros e roteiros, são abandonados por família, amigos, amantes, porque eles se reconheceram nas narrativas e se sentiram  ridicularizados, explorados, traídos, expostos. E com razão, ora.

Hoje já não tenho mais ilusão de que escreverei algo maior ou mais interessante que um post. Mas algo que me incomoda na possibilidade de criar e divulgar um livro (ou roteiro, texto) seria, mesmo alterando cenários e misturando passagens, “entregar” acontecimentos reais de gente que conviveu comigo ou que ainda me conhece. Conheço minha escrita, não sou de digressões interiores, psicológicas, sou de contar histórias mais do que sentimentos. E histórias próximas: para interpretar notícia de jornal já temos o Facebook. Me incomoda saber que um primo se ofenderia, que uma antiga amiga ficaria envergonhada, que uma revelação pudesse ser identificada por alguém cuja vida tenha inspirado uma narrativa fictícia. Claro que isso não é desculpa por minha mediocridade e falta de produção, de forma alguma: só demonstra o quanto a gente pode sonhar longe com fama e reconhecimento – o que me faz voltar à esfinge Elena Ferrante. Será que te entendo?

 

* Não posso apresentar a realidade dos fatos, posso apenas mostrar sua sombra

**tradução livre, leve e solta

 

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9 comentários sobre “A sombra dos fatos

  1. Que engraçado. Desde o começo dessa história, pra mim tá claro que “ela” não pode aparecer. Já viajei no assunto: será alguém famoso por seus textos sérios? Será um homem que não achou que seus livros seriam levados a sério caso escrevesse com seu nome?
    Será alguém que tem um cargo que não permite essa atividade “fútil” de escrever romances?
    Nunca imaginei que “ela” não quisesse aparecer.

  2. como você sabe, os livros da Ferrante me disseram muito pouco. Não sei se você sabe, os filmes do Woody me dizem muito, mesmo quando são os fraquinhos. Não faço idéia do que isso diz de mim, hohohoh.

    Mas nem era esse o comentário, era mais sobre a reflexão que você me faz fazer sobre o que eu escrevo. Eu não sei contar histórias. As coisas que escrevo são apenas sombras das histórias. Impressões. Como se aquelas marcas pré-históricas tivessem sido feitas não como narrativas, mas como crianças desenhando no restaurante enquanto seus pais comem e falam sobre coisas importantes.

    (suspeito que ainda volto aqui)

  3. Ah, eu tinha esquecido dessa versão, Renata, mas acho mais improvável. Se se tratasse de uma história ruim, um texto, fraco, aí sim. Lu, deve ser por isso mesmo o teu desagrado com ela. Volta!

  4. infelizmente só li os dois primeiros. Tenho que esperar pelas traduções :c(
    Li, recentemente, uma entrevista dela no globo (feito por email, se não me engano) que achei muito boa.
    Tb li um post sobre as capas dos livros – a tal discussão de literatura feminina – que achei muito boa.
    Se passar pelas minhas vistas de novo, lhe marco ou lhe envio, vale a pena.
    Acho um absurdo o(s) livro(s) não terem dito nada a dona Luciana (e aqui a gente não pode taguear para obrigá-la ver). eheheheheheheheh

  5. ahahah, Claudinho, não é que não me disse nada. Só me disse pouco. Achei bons livros, história legal, vou ler os demais. Não achei ruim. Só não me cativou. Pra me capturar eu tenho que me vincular aos personagens. Potencialmente eu poderia com o Nino, mas ele vai se tornando tão plano que me perdeu.

  6. A Unica historia que eu sei contar é a minha. Eu não saberia contar a historia de outra pessoa. nem real e nem inventada. Não que eu tenha tentado, mas eu acho que não rola mesmo.

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