To the valley bellow

É um alívio quando, entre duas sensações que causam desalento – de um lado, a de que não há mais o que escrever; de outro, a de que nem tudo deve ser escrito – surge um assunto que não vai fazer mal a ninguém, nem a mim (apesar de me causar nostalgia, o que detesto). Mas Bob Dylan ganhou o Nobel de Literatura. Não sei o que dizer especificamente sobre isso. Achei legal. Como a Beth lembrou em seu texto, há grandes poetas escrevendo música, e é arte, enfim. Já temos motivos suficientes pra drama nessa vida.

Muito tempo atrás decidi que numa eventual aposentadoria eu me dedicaria a aprender e entender completamente as letras de músicas de dois poetas: Leonard Cohen e Bob Dylan. Imaginava que seria um período livre para me dar esse prazer, como o fiz quando era adolescente e também tinha tempo de sobra. Naquele tempo o esforço era para aprender inglês sozinha, traduzindo músicas direto do som para o dicionário Barsa, guiada pelos fonemas, procurando verbos até que as frases fizessem sentido. Foi assim que decifrei todo o disco de singles do The Police, que sei de cor até hoje. Mas não acredito mais que terei esse privilégio no futuro, pelo contrário: se não vejo aposentadoria também me desespero ao ver a pouca possibilidade de trabalho. Assunto para outro post.

É meio vergonhoso admitir isso, pois entre nós na internet é tão normal o domínio do inglês, perfeito em seus sotaques, gírias e segredos. Mas eu fiz dois anos de curso de inglês pra valer, aos 14-15 anos e de resto aprendi na marra. Então há muitas, centenas de músicas, que adoro, mas não sei cantá-las porque as aprendi quando ainda era muito iniciante, ou nem isso, na língua. E o cérebro é um bicho indomável. Se escuto Blowin’ in the Wind, não consigo entender a letra toda ainda hoje. Canto e escuto Queen, Led Zeppelin, Prince, ou mesmo qualquer mela-cueca dos anos 80, como 30 anos atrás, com muito virundum.

Aí quando dou continuidade ao projeto Educating Nina Cultura Pop e Afins acabo aprendendo mais que ela. Hoje mesmo a chamei lá pelo meio-dia e meia para dar uma deitadinha comigo na minha cama ainda desfeita. Geralmente essa é a senha para eu mostrar os “salvos” do Facebook, que vou guardando durante a semana – gatinhos, memes, piadinhas, vídeos interessantes etc. Liguei o Spotify, botei na lista do Bob Dylan e convoquei – vamos ouvir e ler as letras das músicas do prêmio Nobel de Literatura? Sabendo que depois viriam os “salvos” ela topou.

Ficamos só nas óbvias, claro, e Like a Rolling Stone é fantástica para prender a atenção de alguém disposto a ouvir de verdade a decadência da mulher rica desprezível que perdeu tudo – invisible, now.

How does it feel? To be on your own, with no direction home – like a complete unknown, like a rolling stone. 

Gosto de Bob Dylan. Gosto dele ser feio, da voz feia. De não comentar o prêmio. De ter sido zoado pelo Woody Allen em um de seus primeiros filmes (Manhattan? não lembro). Em Forrest Gump. Gosto do visual de pirata cowboy.

Contei todas essas referências do cara. Essa é a coisa boa de ter filho/a: a nostalgia vira lição, e eu me permito um pouco de passado. Depois pulei pra uma das minhas favoritas, daquelas que causam ódio a quem não estiver disposto a ouvir – porque convenhamos, a voz do Bob Dylan é tão polêmica quanto a do Chico Buarque. Mas prefiro as versões originais dos dois. “Agora vamos ouvir uma música cigana” – One More Cup of Coffee. Outra história intrigante: seu pai é um contrabandista (traficante, whatever), você, sua mãe e sua irmã leem o futuro. E essa letra é como algumas do Chico, também, que me dá um prazer enorme de cantar o refrão – to the valley bellow. Repita pra ver como o viajante se prepara pra sumir na estrada e a letra escorrega pela língua.

One more cup of coffee for the road, one more cup of coffee before I go – to the valley bellow. 

Fechando o momento clichê, a história do negro preso injustamente, contada tintim por tintim, nos mínimos detalhes, de Hurricane, fez a Nina comentar no meio da audição/leitura: “que música legal”. Já combinamos de assistir o filme com Denzel Washington. Ainda ouvimos Blowin’ in the Wind com o Eduardo Suplicy. Ah sim, pra fechar com Knockin’ on Heaven’s Door ela exigiu ouvir com o Guns.

Há tantas, tantas mais. E eu me dou conta de que até que gosto de poesia, sim, desde que possa cantá-la.

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9 comentários sobre “To the valley bellow

  1. gostei tanto desse post…
    também fiz uma coisa parecida há algum tempo, com meu filho que mora comigo, ouvindo as musicas e falando do dylan, de sua ligação com o folk, com os poetas da contracultura, de como ele começou a usar a guitarra elétrica… e ele hoje tambem virou um grande fã…
    eu sou das maiores admiradoras de bob dylan, tenho seus discos e livros, escutei os programas de radio que ele faz, já assisti a tres shows dele.
    sou da época de woodstock, dos beatniks, dos protestos contra a guerra do vietnam. e bob dylan é isso tudo…
    o nobel de literatura foi muito comemorado aqui em casa…
    beijo, querida.

  2. Duas Fridas

    Esse filme do Denzel vale a pena, Tina – descontando o fato dele ser meu futuro marido (nessa encarnação ou na próxima). Comecei a ver despretensiosamente, achando que ia dormir, e me peguei sentada na cama ereta, tensa. Depois corri pra internet pra saber do real one, que faleceu há poucos anos mas ainda era vivo quando vi o filme.
    Da música não gosto porque ouvi pela primeira vez durante um ataque de bronquite que, como a canção, parecia não ter fim. Nunca mais consegui ouvi-la sem que me faltasse o ar.
    Beijo,
    Helê

  3. Tina, o filme não é um excelente filme, no sentido clássico, cânone ou seja o nome que tiver, eu imagino que não seja na verdade, mas nem sei. Mas tá nos meus preferidos de toda vida. Eu tenho obsessão por essa história. Eu acho que vale demais ver, tem o Denzel.E você falando da educação da Nina me deu a ideia de ver esse filme com o Tariq também. E eu amo o Dylan. Amo. Mas estranhamente fiquei muitos anos sem ouvir nada dele. E acho tão legal ele ter ganho, em tempos tão caretas, tão estranhos e tão bestas. Acho demais um cara da geração de 68 ganhar isso agora, neste exato momento, embora eu fosse gostar que ele tivesse ganho em qualquer momento. Adoro te ler. Beijo

  4. Nalu, não tinha me dado conta disso, como esse prêmio ficou mais importante, sim, porque ele é O cara da geração de 68. Vou ver o filme, sim, só não vi até agora pq passou batido. Esquecimento. Teus filhos têm os nomes mais lindos. Bjk.

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