Navegar é preciso

Há quem goste de viajar e se surpreender. Eu gosto. Mas uma coisa que nunca mais faço na vida é chegar a um lugar sem qualquer referência sobre ele; o arrependimento de não ter consultado um guiazinho ou de conhecer uma história que fosse é quase inevitável. Pensando nisso, fiz outro dia um post no nosso arqui-inimigo, o Facebook, comentando que gosto de indicar livros/filmes que remetem a países/cidades. Não que eu seja uma grande leitora, cinéfila ou viajante, mas juntando um conhecimento aqui, uma referência ali, acaba saindo alguma listinha boa. Aí muita gente colaborou com o post e ele ficou maior do que eu tinha planejado, por isso o transfiro para a melhor das plataformas, o blog, onde sofre menos risco de desaparecer. Vamos às dicas que tem gente de sorte de férias por aí.

AMÉRICAS

trilogia

VAI PRA CUBA! Então leia antes O Rei de Havana ou a Trilogia Suja de Havana, de Juan Pedro Gutierrez. E agora tem uma série nova na Netflix chamada Quatro Estações em Havana que, ouvi dizer, vale principalmente pela ambientação na cidade. Baseada na obra de Leonardo Padura Fuentes, escritor policial que me parece muito bom, e do qual vou atrás. A Ana Carolina Bendlin lembrou de Nosso Homem em Havana, livro policial-espião do Graham Greene que eu preciso reler e que tem uma versão cinematográfica delicinha noir com roteiro do próprio autor.

amorbas

VAI A BUENOS AIRES? Então indico O Amor Segundo Buenos Aires, do meu amigo Fernando Scheller. Uma delícia. Nunca fui à Argentina, portanto não tenho mais dicas, apenas imagino que ler os grandes autores e pegar a filmografia do Ricardo Darín seriam uma boa providência. Mas cito também o filme argentino que mais me marcou, ultimamente: O Clã.

Quer se inspirar para VISITAR O PERU? A Ana Carolina Bendlin lembrou de Travessuras da Menina Má, de Mario Vargas Llosa, que também vale para Paris, pois se trata de uma história em vários cenários.

VAI A NICARÁGUA? Hugo Lorenzetti indica El País Bajo Mi Piel, de Gioconda Belli; Adiós Muchachos, de Sergio Ramírez, e Managua Salsa City, de Franz Galich.

GUATEMALA: “Soy Rigiberta Menchú y así me nació la consciencia”, da própria; “Week-end en Guatemala, do Asturias – dicas do Hugo, assim como para  EL SALVADOR: “qualquer coisa do Salarrué e do Roque Dalton”. Para o PANAMÁ, Hugo garante a leitura de El Ataùd de Uso, de Rosa Maria Britton.

confesso

VAI PARA O CHILE? Minha dica e da Raquel Azevedo é Confesso que Vivi, do Neruda – não é poesia, é autobiográfico, e como a Nina, você vai querer virar diplomata também. Já a Nalu prefere A Casa dos Espíritos (Isabel Allende), que leu durante a viagem até lá. Inclusive tem o filme. A Fernanda Castro recomenda ainda ouvir Violeta Parra – o que renderia outro post: o que você ouve quando pensa em viagens? Mas fica pra próxima.

PARA O CANADÁ? Leia Alice Munro, de preferência Felicidade Demais. Depois não me culpe se achar deprê demais. E para assistir, recomendo demais O Declínio do Império Americano e sua continuação trocentos anos depois, As Invasões Bárbaras, ambos do cineasta Denys Arcand.

VAI A NEW YORK? – Ler e assistir Woody Allen é básico. Manhattan, principalmente. Mas a cidade está em tantas referências. A Raquel Azevedo cita Serendipity. “Eu adoro, a NY dos late 90s está toda ali” –  não conheço o filme, mas se tem o John Cusack, já aprovo. “Autumn in New York é uma coisa água com açúcar mas mostra a cidade na estação em que fica mais linda. As comédias da Nora Ephron são super NY (Sleepless in Seattle e You’ve Got Mail). Dos clássicos, tem o Era uma Vez na America, os The Godfather, as comédias do Billy Wilder (adoro The Apartment), the French Connection… são tantos! E tem um dos meus filmes favoritos, que se passa no Brooklyn, The Squid and the Whale”, cita Raquel. Já eu quando for à cidade quero correr no Central Park me sentindo o Dustin Hoffmann fugindo do dentista nazi em Maratona da Morte 😉  E claro, mil locações de séries, de Seinfeld a Sex & The City (saudade dessas meninas).

EUROPA

VAI A PARIS? Que sorte. Obviamente, recomendo ler Paris é uma Festa de Hemingway, e Próxima Estação, Paris (L. Deutsch). Também assistir Camille Claudel com Isabele Adjani, para chorar durante a visita ao Musée Rodin, ou mesmo ver A Rainha Margot antes de visitar a Notre Dame e o Louvre. Antes de visitar o Palácio de Versailles, assistir Versalhes, Sonho de um Rei. Você vai saber que o palácio é resultado de nada mais, nada menos, que um grande recalque. E que tanto as florestas quanto o lago não existiam no local. O filme não é lá grandes coisas mas a história é muito legal. A Helena Costa viu Bonequinha de Luxo antes de viajar, e eu endosso que Meia-Noite em Paris, do Woody Allen, virou meio obrigatório, apesar dos personagens americanos que são um porre.

VAI VIAJAR EM AMSTERDAM (rysos)?  Para ir a Amsterdam assisti o episódio da BBC de O Poder da Arte, que infelizmente não pode mais ser visto aqui no Brasil, mas quem sabe tem pra baixar em algum lugar? Pra saber tudo sobre Van Gogh e Rembrandt, claro! Infelizmente minha TL não tem muito o que dizer sobre maconha e o bairro das moças nas vitrines. A Rita Paschoalin indica ler Cartas a Theo, a correspondência dos irmãos Van Gogh, e também O Diário de Anne Frank, que é pra se acabar quando for ao museu. Ainda não li Amsterdam de Philip Roth mas já aposto que é uma boa. E tem esse episódio de Dr. Who que é covardia. Mas é sobre o pintor, não sobre a cidade, que merece uma missa à parte.

PARA BARCELONA: A sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón (indicação de Lucio Caramori, que viaja muito, sabe tudo, me indicou o museu de Edimburgo e até hoje a Nina ainda acha o melhor em que já esteve/brincou). E tem Almodóvar pra mostrar a cidade em Tudo Sobre Minha Mãe.

PARA BERLIM: Novamente o Lúcio, que indica a leitura de Slaughterhouse 5 do Kurt Vonnegut. Para assistir, Adeus, Lênin – lembrança da Vanessa Viana. A Fernanda Peruzzo lembra de Asas do Desejo, do Win Wenders,claro – nem pense em cometer a insanidade de ver aquele com o Nicolas Cage. Ok, se quiser siga em frente, mas tô avisando.

PARA PORTUGAL: qualquer Eça de Queiroz, é o consenso – A Relíquia é a indicação da Camila Manfré Gläser. E do Saramago, a História do Cerco de Lisboa, lembra a Jaqueline Frutuoso, para quem o livro é quase um roteiro turístico romanceado. Ana Carolina Bendlin indica O Ano da Morte de Ricardo Reis. PARA LISBOA, especificamente:  a poesia de Cesário Verde e a de Sophia de Mello Breyner Andersen – “come on, Pessoa is so common”, diz Hugo Lorenzetti, que assina essas dicas e ainda a do quadrinho Portugal, de Cecil Pedrosa. O Lúcio Caramori lembra do filme O Céu de Lisboa, de Win Wenders. O que me lembra daquele azul profundo, ai ai.

LONDRES? A Daniela P. B. Dias confessa: “nunca fui a Londres, mas Os Tijolos Nas Paredes das Casas da Kate Tempest me fez sentir a cidade”. Então vamos atrás. Londres complica porque é como New York, tantas as referências que me vêm, de Sherlock a Luther, na Netflix. A Terla recomendou Rosamunde Pilcher pra quem quer ir à Cornualha, mas eu não entendi se o livro seria Os Catadores de Conchas. Particularmente, prefiro ir de Jane Austen, tanto na tela quanto nas letras.

Ou ainda dá pra ver Londres quietinha, quase abandonada, nos primeiros 15 minutos do melhor filme de zumbis já feito (eu acho, me deixa).

ESCÓCIA: aproveita que em janeiro de 2017 vai ser lançado a continuação de Trainspotting e assiste o primeiro. Desculpa mas eu ando meio obcecada com essa produção, e estou no segundo livro, chamado Porno. Ambos de Irvine Welsh. Mas também dá para conhecer Edimburgo lendo ou assistindo a Um Dia, de David Nichols (o escritor).

VAI PARA A ITÁLIA? 

SICILIA: L’Aventura, do Antonioni. Salvatore Giuliano, do Francesco Rosi, para se inteirar sobre a história da máfia antes de visitar a região de Trapani. Dicas da Fernanda Peruzzo.

FLORENÇA, amada Firenze, tem dois filmes indicados pela Gisella Dória: Inferno, baseado no livro do Dan Brown, e Uma Janela para o Amor, antiguinho, do tempo que a Helena Bonham Carter era famosa por só fazer filmes de época. Delícia!

ROMA – a Renata Lins lembra do obrigatório Roma, do Fellini. Aí é covardia. Nani Moretti também foi lembrado: “pesquisa pelo  episódio Garbatella de Caro Diario”. Mas não tem como não ver La Dolce Vita também, desculpa aí, Roma exige clássicos. Apesar de que tem um episódio delicioso e desavergonhado de Uma Noite Sobre a Terra, com histórias em quatro ou cinco cidades do mundo, filme que teve uma segunda versão, sempre cada episódio com um diretor diferente – achei o de Roma, segue abaixo. =) A Ferzinha Peruzzo também lembra de Feios Sujos e Malvados, do Ettore Scolla, “porque o melhor da Itália são os italianos sem glamour ;)”. Amo esse filme mas é pra ver uma vez, ele te consome. Outra coisa que sugiro é pegar um guia de Roma e sair atrás de todos os Berninis que você puder encontrar. 

 

NÁPOLES – Pelamordedeus, tava esquecendo dos quatro livros da Elena Ferrante. Outro dia vi um link com os lugares por onde os personagens passam, se achar, atualizo aqui. Outra dica da Ferzinha: Viaggio in Italia, do Rosselini, para chorar quando visitar Pompeia.

amiga

VAI A BÉLGICA? Antes de conhecer a ANTUÉRPIA, veja o filme Anywhere theWind Blows  e para BRUXELAS, Brüsel, quadrinho de Schuiten & Peeters (dicas do Hugo).

ÁSIA

PARA ISRAEL: Indicação da minha amiga Daniela, Operação Shylock, do deus Philip Roth. Elogiadíssima também a série Fauda, disponível na Netflix.

VAI PARA A TURQUIA? A Rachel Penariol acha que você deve ler O Museu da Inocência, do nobelizado Orhan Pamuk, antes de conhecer Istambul.

ÍNDIA: Leituras recomendadas pelo Hugo: White Tiger, de Aravind Adiga; The Dod of Small Things, de Arundathi Roy; qualquer conto ambientado em Maguldi; Serious Men, de Manu Joseph e Narcopolis, de Jeet Thayil.  Eu de minha parte ouso indicar o Salman Rushdie e a Jhumpa Lahiri.

IRÃ: “Death in Persia”, de Annemarie Schwarzenbach é a recomendação do Hugo. Eu sugiro ainda o filme A Separação, maravilhoso. Tem uma porrada de bons filmes iranianos por aí.

BUTÃO: Sim, temos dica para quem vai ao Butão, o quase inatingível reino da felicidade.  The Raven Crown (parece ser uma belezura). Dica do Hugo, Nosso Homem no Butão.

PAQUISTÃO: The City by The Sea, de Kamila Shamsie (dica Hugo).

SEUL – A Denise Arcoverde morou na capital da Coreia do Sul e garante que um filme de monstro vai mostrar todas as pontes da cidade e até dar margem a uma análise sobre a socidade local etc. É The Host, eu nunca assisti e fiquei super a fim.

OCEANIA

VAI PARA A AUSTRÁLIA? A Rita Paschoalin acaba de ler Ithaca Road, do Paulo Scott, que se passa em Sydney. Faz parte da série Amores Expressos, da Cia das Letras. Já eu acho que todo mundo tem que ver o melhor road movie já feito:

NOVA ZELÂNDIA? Você pode ter uma ideia da colonização em seu início, lindamente, assistindo ao premiado O Piano. Ou pode conhecer os efeitos dessa colonização sobre os descendentes dos aborígenes, em um filme violento e original que eu adoro: O Amor e a Fúria. Nada fofo e nem passa perto das belezas dos cenários naturais, mas isso você já viu em todos os episódios de O Senhor dos Anéis.

ÁFRICA

QUÊNIA – a história da colonização do país está em A Fazenda Africana, de Karen Blixen. O filme com Meryl Streep e Robert Redford nem chega a arranhar a beleza das descrições das tribos e dos cenários ainda selvagens. Mas é um bom filme, um romanção daqueles de fazer chorar e tal.

NIGÉRIA – Toda a obra de Chimamanda Ngozi conta passado e presente do país. A Geide Miguel recomenda Meio Sol Amarelo e a Terla, Americanah. Gosto de ambos.

RUANDA – Ok, não conheço ninguém que vá a Ruanda a passeio e nem conheço os filmes sobre o genocídio. Mas não posso deixar de lembrar do lindo Nas Montanhas dos Gorilas, com a fodona Sigourney Weaver no papel da fodona Diane Fossey. Uma daquelas pérolas que se perdeu no tempo.

E por enquanto é isso: algumas dicas óbvias (digamos clássicas), outras totalmente novas. Faltaram centenas de países, mas vamos passar aquele papo bacana naquela rede social aqui para os comentários, que estiver a fim. Assim vou atualizando e ampliando o post. As dicas sobre Brasil (Vera Guimarães falou sobre este livro) vão ficar para um post específico.

Feliz Ano Novo! Que tenhamos a possibilidade de viajar muito em 2017.

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9 comentários sobre “Navegar é preciso

  1. Tina, tá ótimo o post. Sò achei conhecer a Escócia a partir de Trainspotting meio pesado…. botaí um Coração Valente, um Highlander, um Local Hero… (aliás, trilha sonora ). Se for na literatura, e se a pessoa gostar de policiais ( 🙂 assim, uma pessoa aleatória), recomendo muito os do Ian Rankin (do Inspetor Rebus). Passados em Edimburgo.
    Sei, o post fechou. Fica a dica pra um 2° round.
    Beijos!

  2. Tina, que lista maravilhosa! Vou consultar o post antes de ir à livraria: tem vários livros aí que me deram água na boca. Só uma correção, chérie: “Viaggio in Italia, do Rosselini, para chorar quando visitar Pompeia” deveria estar na lista relacionada à Napoli. 🙂 baci, baci.

  3. Que delícia de post. Já quero fazer um checklist e visitar todos os livros, filmes e cidades 🙂
    Estou no meio de O Ano da Morte de Ricardo Reis e, realmente, Lisboa é uma personagem à parte.
    O Van Gogh de Doctor Who é apaixonante (ele no museu é pra se acabar no choro), mas revi depois de passar por Auvers-sur-Oise e fiquei triste por nem citarem a cidade, já que a trama envolve a igreja de lá (vou nem falar da enorme casa de três cômodos desse Van Gogh hahaha).

  4. Que delícia de post! Eu sempre gosto de rever “A princesa e o plebeu”, antes de ir a Roma. Ver o lugares lindos da cidade sendo apresentados a Audrey Hepburn pelo Gregory Peck é luxo só!

  5. vi o post no nosso arqui-inimigo, mas não comentei nem sei pq.
    lembrei de Medianeiras – no item Argentina – que nem é com o Darin.
    E sobre a dica da Vera, vale inclusive uma visita a Vassouras. Apesar da pouca manutenção do museu por conta de nossos governos darem pouco valor aos dividendos trazidos pelo turismo.
    Fiz, num pequeno período estágio no meuseu casa da hera. Eufrásia além de independe e rica encomendava seus vestidos à Maison Worth. Charles Worth é considerando o pai da alta costura. Segundo consta, ele mantinha em seu ateliê modelos (na época devia ter outro nome, claro) que tinham o corpo e o rosto semelhantes aos das clientes – vips, óbvio – para que as clientes pudessem avaliar como ficariam os vestidos sem precisar do incômodo de ficar trocando de roupa.
    Ter dinheiro é bom em qualquer época, em qualquer cidade e em qualquer viagem, não?

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