Euzinha

*Previously*

No post anterior comentei que tentaria evitar escrever em primeira pessoa. Bobagem, esqueça. Sobre o que mais escreveria nesses dias? Vamos lá.

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Tinha num livro do Sidney Sheldon ou Harold Robbins, não sei, que li lá pelos 13 anos, uma personagem que era golpista e, a bordo de um navio, descobriu que entre os passageiros, porém em classes diferentes, estavam dois grandes jogadores de xadrez. Aí ela apostou uma partida com cada um. Assim, subia e descia pelas escadas do navio, copiando os movimentos de um contra o outro, e fazendo parecer que eram seus.

Às vezes me sinto assim, roubando no jogo: passo dois, três dias consumindo o máximo de notícias sobre política e sobre o vírus, obsessivamente, em sites, tweets, podcasts, desde que acordo e desligo o despertador do celular até a noite, quando o ajusto novamente, gastando minutos preciosos do meu horário de leitura.  Ao fim já nem sei mais o que penso ou se fui eu que concluí que está tudo perdido, mesmo. Até que toda essa informação me sufoca e passo a me dedicar a limpar a casa, também obsessivamente.

E não sou só eu. Recebo dicas de faxina das fontes mais surpreendentes, de amigas que jurava saberem só ligar a lavadora de louça. Não somente pela necessidade porque a diarista, faxineira ou funcionária foi dispensada (e como só me relaciono com gente fina, todas sendo devidamente pagas durante esse período). É a sensação de controle, de literalmente deixar a casa em ordem. Como as crianças que precisam reler e reassistir compulsivamente os contos de fadas pra garantir que a bruxa foi morta, que o bem venceu o mal. Mesmo que a faxina termine às seis da tarde porque você não teve disciplina e se enrolou, e que até a hora do Jornal Nacional seu labrador já tenha babado e deixado pelos por todo o chão. Tem aquele momento em que você olha tudo arrumadinho, em silêncio, por dois segundos que seja, e sente a paz do dia normal, do mais-um-dia.

Efêmera.

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Topei com um texto em que Michel Houellebecq garante que um mundo melhor não surgirá da pandemia. O texto é bacaninha e ele conta que, mais do que das pessoas, sente falta das caminhadas, que para Nietzche eram fundamentais para a reflexão de seus textos, ao contrário de Flaubert, para quem que só seria possível pensar e escrever bem se estivesse sentado. Polêmica de alto nível.

Houellebecq é um dos meus escritores favoritos, mesmo quando não gosto de um ou outro livro. Mais à frente ele cita outro autor,  Philippe Ariès, que identificou a tendência contemporânea de  encobrir a morte. “Bem, a morte nunca foi tão discreta quanto nas últimas semanas”, comenta, sobre a ausência de velórios e enterros das vítimas de Covid-19.

Mas o principal efeito até agora, diz o vieux terrible, é termos assumido “com indecência tranquila” que é possível escolher, entre os doentes, os que devem morrer — os idosos. Que “a partir de uma certa idade (70, 75, 80?) é como se você já estivesse morto”.

E nesta semana tivemos a indiscreta morte de Flávio Migliaccio, com sua carta (que só li uma vez, envergonhada), gritando para o mundo que não é possível mais envelhecer no Brasil, neste Brasil. Não apenas por ser a primeira opção nas UTIs, pela pobreza, pelo descaso. Morre-se de desgosto. Lima Duarte rompeu o pudor que envolve um suicídio e fez uma homenagem corajosa ao amigo.

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Houellebecq aponta o desdém ao valor dos velhos no velho mundo. Por aqui temos o debate do que vale mais, CPFs x CNPJs.

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ASSISTINDO: Amiga Genial/ Curb Your Enthusiasm.

LENDO: Complô contra a América, Philip Roth (ainda na metade)

COMENDO: pizza

BEAUTY: tingi o cabelo

SAÚDE: só tusso quando penso

Um comentário sobre “Euzinha

  1. Juliana

    Minha mãe também limpa obsessivamente, mas agora que descobriu uma série pra maratonar transferiu a obsessão.

    Tô com o Michel: vamos sair disso atolados em tristeza e pobreza.

    A lucidez do Flávio e do Lima chega a ofuscar a gente.

    Que bom que você voltou ao Pergunte ao pixel, tina! Bjo

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