Amanhã será pior

Como chegamos a isso?

Pobres: fodam-se, ricos

Ricos: Fodam-se, pobres

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Eu só queria ter facas bem afiadas. É um absurdo ou uma baita questão pra psicanálise que eu não tenha aprendido a afiar facas, porque essa atividade era uma das principais distrações do meu vô materno, o seu Zé do Pio. E eu me acho parecida com ele em algumas coisas, como a disposição para andar quilômetros, calmamente, pensando na vida ou apenas evitando estar onde deveria (coisa que não faço mais, mas gostaria). O vô, que já conheci aposentado, passava horas sentado na escadinha do quintal, afiando suas facas obsessiva e lentamente – sem a menor necessidade, pois era isso todo dia. A vó Maria não deixava as crianças nem olharem para as facas, capazes de cortar uma folha de papel no ar. E assim, nunca aprendi a afiar e sofro hoje com facas cegas que não cortam nem os tomates do eterno fazer-comida da quarentena.

Essa é mais uma das heranças desimportantes que não recebi.

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Comentei hoje com uma amiga que as selfies dela me lembraram boneca de papel: sempre a mesma carinha e corpo, perfeitos, com roupas diferentes. Quando criança tive uma fase de estilista de boneca de papel, das cabeçudas ou das protobarbies. Amigas da minha irmã que frequentavam nossa casa me mostravam suas bonecas, eu as media, fazendo um traço no papel e marcando nele onde ficavam os detalhes (algumas tinham até mãos nos bolsos). Elas escolhiam, em revistas e catálogos, quais modelitos queriam. Eu desenhava igual às fotos, recortava e fazia aquela alça extra para a roupa ficar presa à boneca. Não sei se criava alguma coisa ou se já tinha uma alma operária, fazedora, de bastidores. Provavelmente não me arriscava a criar. Muitos anos mais tarde a Nina desenhou uma coleção com o tema Universo: vestidos pretos ou em azul marinho com o que seriam bordados em cristais e linhas brilhantes imitando estrelas, luas, galáxias. E mais alguns anos mais tarde, topamos numa vitrine da rua mais chique de Paris com uma coleção parecidíssima com a dela (não foi a única, o tema volta a cada década). Heranças desimportantes.

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Com o tempo, aprendi a aceitar a nostalgia.

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Compras:

Queijo/ presunto

Plástico filme

Shampoo Pantene abacate (para Nina)

Tinta de cabelo

Ervilha congelada

Guardanapos

Queria mesmo comprar:

Difusores de ambiente pra ficar com cada parte da casa com um perfume, assim como têm cores diferentes. Lavanda na salona, gengibre no meu quarto, ervas, canela, grama nos outros.

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Acabo de ler mais um livro do Houellebecq, O Mapa e o Território. Neste ele não nos desafia, não nos confunde, fazendo-nos rir ou nos tornando cúmplices de ignonímias. A provocação está no uso de trechos da Wikipedia e de manuais para descrever produtos e lugares – como se não fossem essas as informações que nos satisfazem já há anos, o primeiro resultado da busca do Google para sustentar nossos debates. Tem lá suas discussões sobre arte e dinheiro, também. Aponta, demonstra, denuncia, zomba do consumismo e dos modos de produção. Mas é um livro triste, apesar de passagens que levam ao riso largo – o próprio Houellebecq se faz personagem e sua participação cria as melhores páginas do livro. Um livro sobre vida, arte, decadência, morte, mortes.  

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