Looping

[Esse texto foi publicado originalmente no blog La Vie en Close, de 2013, no qual contava sobre o ano em que vivemos na França. O texto foi feito depois de nossa primeira visita à Disney de Paris. Hoje é aniversário de 16 anos da Nina e eu lembrei dele.]

***

Eu estava louca pra ir naquela montanha-russa. A primeira vez na minha vida. Ela bancou a corajosa e quis me acompanhar. Claro, a primeira dela também, dando um salto (um looping) de três décadas no histórico familiar. A altura já permitia. Acabamos indo os três. Na fila, num corredor escuro e longo, lotado e sufocante, ouvíamos os gritos daqueles que, sobre nossas cabeças, já estavam nos vagões, cruzando o universo, passando pelas galáxias, buracos negros e supernovas, como anunciavam os monitores, dos quais saíam também os alertas de que pessoas com problemas cardíacos não deviam experimentar aquele brinquedo. Eram gritos de pavor mas ainda parecia divertido. O chão e o teto tremiam. Perguntei até o último momento se ela tinha certeza se iria mesmo enfrentar altura e rodopios. Ela me garantiu. Mas no momento em que sentamos lado a lado na nave espacial, suas mãozinhas estavam geladas e ela se arrependeu. “Não quero mais”, mas era tarde. O baque da primeira subida na montanha-russa foi forte, um prenúncio dos sustos que viriam a seguir. Foi a primeira vez, ainda, em que me senti realmente impotente. E de ponta-cabeça. Não podia mais protegê-la, só continuar segurando sua mão e dizendo (gritando) “calma, já vai acabar, fecha os olhos, eu tô aqui”.

A metáfora é irresistível. Há um ano, trouxe a Nina para uma aventura que fez nossa vida virar de ponta-cabeça. Frágil, ela seria a pessoa mais afetada pelos sustos de um universo completamente diferente, uma realidade paralela com outra língua, outro modo de ser e de estar no mundo. Ela não teve medo e enfrentou tudo bravamente. Escola. Língua. Distância. Saudade. Amizades. Estudo. Nunca disse “não quero mais”. Aceitou e assumiu um capricho dos adultos, resignada, bem humorada e feliz.

Nove anos atrás eu a trouxe para essa montanha-russa. Hoje o tempo me pesa e sou eu que preciso mais de suas mãozinhas, da sua presença. Ainda a protejo, mas sou cada vez menos necessária. Logo ela vai começar a escolher suas próprias aventuras e eu, mesmo que me sinta impotente de novo, espero que ela sempre escute meu eco, “estou aqui”.

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